23.10.04

Crónica: A Espada da Mente

Há treinos e treinos e estados de espírito. Há dias em que corre tudo mal ou que, pelo menos, alguma coisa nunca está bem. Outros há em que parece-nos tudo perfeito, mesmo que não seja realmente assim. Parece-me que não é preciso esperar por um dan para olhar o nosso Kendo através do que temos na cabeça - a influência da nossa mente na espada que seguramos é evidente desde o primeiro dia.
O nosso corpo faz milhões de movimentos inconscientes todos os dias, fora os milhares feitos em cada treino de Kendo. Não nos é possível pensar em cada um deles, não nos podemos observar em partes e estar em cima de todos os pormenores. Isso não significa a ausência de concentração, pelo contrário. Tal como uma verdadeira espada, a nossa mente não é composta de um só material, somos razão e emoção. Na sua solidez cortante, o nosso lado racional concentra-se, observa e decide o que fazer. Na sua instantãnea flexibilidade, o nosso lado emocional só é palpável naquilo que chamamos de atitude, tudo o resto é feito inconscientemente, apreendido por horas e horas de treino.
Esta atitude que procuramos é, em parte, confiança, em parte, humildade. Não tem medo nem raiva, é ao mesmo tempo adaptável e irredutível, paciente e decidida. É forjada e batida em cada aula, tal como uma lãmina japonesa.

10.10.04

A Insustentável Leveza do Bogu

Há sempre muita coisa a contar num regresso de férias. Um novo ano de Kendo começou e tudo indica que vai ser ainda melhor que o anterior. Temos gente nova, temos os "veteranos, temos, enfim, quase mais de metade da turma com bogu. Parabéns e boa sorte!
Ontem foi a primeira assembleia onde a Associação de Kendo do Porto deu os primeiros passos. Vamos entrar em 2005 com maior responsabilidade e iniciativa aqui no Norte, tentando ter o maior número de praticantes possível, elevar o nível praticado e fazer as contas baterem certas.
Nos treinos, para quem tirou descanso, é sempre difícil recuperar. A adaptação à armadura é uma batalha em todas as aulas, quer em técnica, quer em resistência física. Os novos alunos chegam agora a um treino completamente diferente do que tínhamos em 2003. Ter um bogu onde bater é um dado adquirido e a motivação só pode ser maior. No CLIP, só nos podemos queixar do chão rugoso do pavilhão e dos pequenos problemas que são naturais quando o espaço não é completamente nosso. Aos dias da semana já enchemos duas turmas de vinte e, aos Sábados, temos, pelo menos, o dobro. Este Sábado, assinale-se um bom treino dirigido pelo nosso Sensei Osaka, ao qual também não deve ter escapado que as férias nos fizeram mal :)
Também de férias esteve este blog, em parte pela suspensão das aulas, em parte por problemas técnicos. Com as melhorias feitas no Blogger, dei-lhe uma limpadela e estou a remontá-lo neste novo design. O servidor onde guardo as imagens está frequentemente em baixo, por isso o MEN! não está tão bonito como eu queria. De qualquer forma, vamos ter posts todas as semanas - se, não pela sua eventual validade técnica, pelo menos na sua validade jornalística. Fica aqui a história da nossa modalidade no Porto, desde o nosso aniversário de 1 de Novembro, 2003.

12.7.04

Um link muito útil

Já descoberto e colocado pelo Face (Ricardo) no fórum da APK, depois de o ler, tinha mesmo de o põr aqui. Cliquem e bookmarquem :)

7.7.04

Keiko: Alice no País dos Bogus

Para que fique presente aqui no registo histórico, é óbvio que a introdução de cada vez mais bogus nas aulas tem mudado completamente os treinos e tem-nos feito avançar tecnicamente. Mesmo nas katas, ontem aprendemos a quarta sequência, muito distinta, mas talvez mais fácil que a terceira. Entretanto, com a entrada de novos alunos, suponho que as aulas estão a ser mais difíceis para eles do que as nossas foram - mas, pelo menos, a malta nova tem agora bastantes bogus onde bater e mais gente para dar uma ajudinha. Rapidamente passamos de uma turma homogénea para se distinguirem três grupos diferentes: os que entraram recentemente, ainda com dificuldades nas deslocações e em conhecer as técnicas todas; o pessoal perto de ter bogu, a afinar algumas coisas menos bem feitas; e o grupo crescente de bogus, a levar na cabeça de toda a gente.
Em geral, penso que a primeira experiência com a armadura tem corrido bem a toda a gente e as dificuldades iniciais vão sendo ultrapassadas. Tem que se dizer que a oportunidade de fazer jigeiko é excelente, pondo em prática e em causa tudo aquilo que já se aprendeu.
Pessoalmente, as minhas primeiras semanas foram prejudicadas por uma alergia ao pó - vencida secando bem o men - e umas dores persistentes no pulso direito. A habituação ao impacto das pancadas não é difícil, é necessária sim alguma atenção para se fazer bem o papel de motodashi. O cansaço devido ao calor e ao peso extra é um sinal da falta de resistência física, mas também ajuda relaxar e ir ficando menos nervoso, especialmente em combate.
E para vocês, que tal a vossa primeira experiência com armadura? Ou agora contra cada vez mais bogus? Deixem o vosso comentário.

16.6.04

Mr. Bogu em Busca do Keiko Perdido...

Nestes últimos tempos, o Kendo no Porto é marcado por uma boa notícia e uma má notícia. A boa é que, enfim, há bogus e os treinos passam a ter muito mais potencial e a poderem, de certa forma, receber mais gente. A má é que o fim do ano escolar do CLIP é, para nós, o fim da picada - tirando os Sábados a toda a gente e mesmo prejudicando as aulas à semana.
Uma referência fique aqui para relembrar o esforço que o Roberto tem feito para manter as coisas na linha, apesar destas circunstãncias escaparem à sua responsabilidade. Outra fica para desejar que o sempai Alexandre tenha em breve a oportunidade de voltar ao Porto, ele que nos ensina muito desde já o ano passado. Também fica outra de agradecimento ao sempai Nuno, que já está a receber mais alunos novos, para não falar do pessoal de Sábado que lhe vem encher as aulas. Domo arigato!

14.6.04

Crónica: O maior inimigo

Ao levantar já do septagésimo quarto sho-men, o shinai a cambalear, os músculos apertados... já repararam que o nosso maior inimigo está mesmo à nossa frente, a levar na cabeça com cada men que berramos?
Mesmo num já longo ushikomi, em cada momento antes de bater no motodashi, estamos a cortar o nosso inimigo ao meio com cada golpe. E com cada passo mais rápido, avançamos através dele.
Cada um de nós - no seu cansaço e falta de vontade, nas suas dúvidas e perda de confiança - é o maior inimigo que podemos enfrentar. Está comnosco em todos os keikos e constantemente à espreita de testar o nosso valor.
E mesmo em jigeiko, antes sequer de conseguirmos entrar na distãncia do nosso adversário, é por ele que temos que passar. E é ele que derrotamos com o nosso kiai.
Em cada treino, estamos lá para ir além de nós próprios. Neste combate muito pessoal, ganha-se umas e perde-se outras, mas sempre se aprende.

30.5.04

Conto: O caminho

Um jovem rapaz, esperançoso de aprender, consegue encontrar um velho e famoso mestre. Depois de prestar o devido respeito e provar a sua vontade, consegue ser inciado na sua instrução. No entanto, pergunta-lhe:
"Honorável mestre, se eu treinar diligentemente quanto tempo poderei demorar a dominar as primeiras técnicas?"
"Cerca de dez anos."
"Dez anos? E se eu treinar todos os dias duramente, mestre?"
"Vinte anos."
"Vinte? E se eu fizer todos os sacrifícios e treinar sem descanso?"
"Trinta."
O rapaz, já de queixo caído, olha para baixo e fica pensativo.
"Honorável mestre?"
"Sim?"
"Porque razão é que, de cada vez que eu reforço o meu treino, o tempo do qual preciso é maior?"
"Porque quando viajas com um olho atento no horizonte, resta-te apenas um para encontrar o caminho."


MEN!