Crónica: A Espada da Mente
Há treinos e treinos e estados de espírito. Há dias em que corre tudo mal ou que, pelo menos, alguma coisa nunca está bem. Outros há em que parece-nos tudo perfeito, mesmo que não seja realmente assim. Parece-me que não é preciso esperar por um dan para olhar o nosso Kendo através do que temos na cabeça - a influência da nossa mente na espada que seguramos é evidente desde o primeiro dia.
O nosso corpo faz milhões de movimentos inconscientes todos os dias, fora os milhares feitos em cada treino de Kendo. Não nos é possível pensar em cada um deles, não nos podemos observar em partes e estar em cima de todos os pormenores. Isso não significa a ausência de concentração, pelo contrário. Tal como uma verdadeira espada, a nossa mente não é composta de um só material, somos razão e emoção. Na sua solidez cortante, o nosso lado racional concentra-se, observa e decide o que fazer. Na sua instantãnea flexibilidade, o nosso lado emocional só é palpável naquilo que chamamos de atitude, tudo o resto é feito inconscientemente, apreendido por horas e horas de treino.
Esta atitude que procuramos é, em parte, confiança, em parte, humildade. Não tem medo nem raiva, é ao mesmo tempo adaptável e irredutível, paciente e decidida. É forjada e batida em cada aula, tal como uma lãmina japonesa.




